Quando vejo Roberto Carlos cantando a música de final de ano da Rede Globo, não consigo evitar o pensamento do tipo “triste fim de carreira”. O Rei Roberto Carlos virou uma espécie de bem adquirido pela maior rede de televisão do país. Assim sendo, pega bem regravar Roberto, amar Roberto, desde os calhambeque bibi. Ele é uma unanimidade, e é muito bom mesmo. Pessoalmente posso dizer que fui ao show de Roberto no Maracanãzinho, mas a única música que me fez levantar da cadeira pra cantar junto foi “Força Estranha”, de Caetano Veloso. Mas será possível você conseguir ser um fenômeno sem cair nas graças dessa empresa privada, que recebe recursos públicos em diversas de suas produções?
Por causa de uma única música emplacada, a Globo uniu em um dueto MC Leozinho e Rei Roberto Carlos. Essa liberdade que os artistas se submetem para serem dirigidos pela Globo é que causa estranhamento. Todo mundo sabe que Roberto Carlos não tem nada a ver com o “Se ela dança eu danço”. A busca pela audiência em salas fechadas reproduzem hoje em dia o que na Grécia Antiga era representada pelo Olimpo. Zeus, Posseidon e sua turma de imortais mexiam em bonecos para fazer valer a vontade divina. Eles eram os “Master of Puppets”, os mestres das marionetes. Traz Roberto, põe MC, tira Roberto, põe Teló com Neymar, põe Roberto de novo, aumenta o salário do Roberto. Até quando vão querer fazer o papel de Deus? Nessa desesperança, em outro canal embarco de alma no avião do Vôo 666 – um excelente filme com a banda Iron Maiden, e me apego com fé ao depoimento de Nicko McBrain que disse que o Iron Maiden nunca teve a mídia a seu favor, mas sempre teve uma grande legião de fãs. Eles não podem andar na rua em qualquer país em que chegam, são imediatamente assediados.
Tive que recorrer a um exemplo fora do Brasil, porque aqui dentro está difícil, a subserviência e a disponibilidade para fazer o que se decide nas salas do Olimpo global, reduz esse número drásticamente, porque em matéria de esconder o que não é manipulável, tiram nota dez. Transformam e descontroem personagens, e todo mundo aceita rindo de orelha a orelha se despencar para o Rio de Janeiro e se apresentar em rede nacional sem receber um centavo. Os próprios Titãs já disseram que nunca receberam para tocar ao vivo na Globo, estou errado? E com a pirataria, os downloads de mp3, já parou para pensar a situação que vivem as bandas no Brasil, depois que seu principal produto passou a ser copiável até por um moleque de 5 anos de idade. Com sorte conseguem desenterrar vários talentos ainda da época do LP para suprir uma falta de novidade no mundo da música, vide Blitz e RPM. Minha amada avó dizia que “se não está na Globo, não é sucesso”. Assim vão sugando até a última gordura do elenco pelanca, sem abrir a guarda para o novo, o inédito. Artistas talentosos impedidos de se estabelecer acabam desistindo de lutar contra esse Godzilla invisível que anda em círculos.
E a verdade absoluta da vovó começa a perder força para o YouTube? Ou vai tudo continuar sendo uma grande conversa com mudo, em que um só fala e o outro só escuta. Quero comprar um CD do Foo Fighters com a música “My Hero”, você tem idéia de quanto eu vou ter que procurar, porque nos supermercados, Lojas Americanas da vida, lá estão o que querem que eu escute, artistas que foram testados e aprovados com selo de garantia. Qualidade não, garantia. Garantia de que a atitude é limitada, a mensagem é mantenedora, e que aceitam se enquadrar dentro da sinopse implícita que se passa ao pública. Essa daqui é uma roqueira baiana cheia de atitude com piercing na língua.
Mas o que seria atitude de verdade, dar as costas e fechar as portas para as oportunidades? Não é essa a questão, a questão é que a vida é maior do que se desenha nas pranchetas dos escritório, a vida está acontecendo aí fora quando um artista consegue transmitir uma mensagem e mudar a vida de uma pessoa. Assim como “My Hero” talvez tenha mudado a minha, mas o Brasil tem sofrido duros golpes para que a vida não seja mostrada, e sim dirigida por funcionários de uma mesma empresa, para que a “realeza” esteja muito bem controlada no especial de fim de ano, para que sejam confundidos, Rei, Deus e uma empresa familiar. Isso mesmo, batam palmas porque o contracheque está na saída.